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Veja o que pode mudar na relação do Brasil com os EUA com Biden presidente

O futuro das relações entre Brasil e Estados Unidos com Joe Biden na Casa Branca depende da capacidade do governo brasileiro de abandonar o apoio personalista a Donald Trump e adotar uma postura pragmática com o novo presidente americano, segundo especialistas ouvidos pelo G1 sobre o que muda entre Brasília e Washington a partir de agora.

"Vai depender do grau de pragmatismo que o Brasil vai apresentar em relação a Biden. Caso o governo sinalize que o aliado são os EUA, e não Trump, as relações podem se encaminhar bem", analisa Leonardo Paz, pesquisador do Núcleo de Prospecção e Inteligência Internacional da Fundação Getúlio Vargas (FGV).

Desde o começo da campanha presidencial nos EUA, o presidente Jair Bolsonaro não escondeu a torcida pela reeleição de Trump, quem ele diz considerar um amigo.

O brasileiro também demonstrou publicamente irritação com as declarações de Biden sobre impor "consequências econômicas" ao Brasil caso o país não pare de "derrubar a floresta". A fala do democrata foi interpretada pelo Planalto e por aliados bolsonaristas como um ataque à soberania.


Para o professor de relações internacionais Juliano Cortinhas, da Universidade de Brasília (UnB), o alinhamento automático do governo brasileiro à pessoa de Trump não foi benéfico e coloca o Brasil sob risco de isolamento.

"Individualizar política externa é um erro imenso, e isso certamente isola o Brasil com a vitória de Biden", critica.

Na visão de Carlos Gustavo Poggio, doutor em relações internacionais e professor da Faap, divergências entre Bolsonaro e Biden não necessariamente vão se traduzir em uma relação ruim entre Brasília e Washington. Para ele, o governo brasileiro deve caminhar rumo a uma via pragmática.

"É difícil fazer qualquer previsão. A gente pode esperar, porém, que o Brasil faça uma política mais pragmática. Na política interna já vemos essa mudança", analisa.


O que tende a mudar


Meio ambiente

Biden deve se unir a outros países, especialmente os da União Europeia, para pressionar governos a reduzir emissões de carbono e aumentar a preservação. Se o desmatamento e as queimadas nos ecossistemas brasileiros piorarem, os EUA podem fazer coro às pressões sobre o Planalto.

No entanto, para o professor Juliano Cortinhas, da UnB, a aplicação de medidas econômicas, como sanções, é difícil de ir adiante porque envolve uma série de negociações internas. Ele não descarta, porém, que a Casa Branca e o Congresso decidam adotar esse tipo de pressão sobre o Brasil.

"A aplicação de sanções não é algo automático, mas é mais possível que elas venham com Biden do que com Trump", avalia Cortinhas.


Direitos humanos

Com a mudança na Casa Branca, sai uma abordagem mais conservadora por parte dos EUA, como a defesa do direito à vida desde a concepção, e ganham força questões relativas aos direitos da mulher e de minorias.

Assim, devem ficar mais raros gestos como a assinatura do documento conhecido como Declaração de Genebra, assinado pelo Brasil e por países como Hungria e Egito. Entre outras coisas, o documento repudia o aborto.

Também deve haver maior pressão dos EUA sobre a qualidade das democracias no mundo. Biden já disse que quer se encontrar com líderes de outros países na Conferência pela Democracia. Nesse encontro proposto, as lideranças devem debater temas como combate à corrupção e ao autoritarismo.


Quando era vice-presidente, Biden entregou, em 2014, à então presidente Dilma Rousseff uma série de documentos sobre a ditadura militar brasileira, com relatórios americanos sobre censura, tortura e assassinatos.

Na avaliação de Carlos Gustavo Poggio, da Faap, esses fatores podem significar um ponto de pressão sobre o Brasil, dependendo do quão positivas ou negativas estiverem as relações com os EUA.

"Os EUA só assinariam um acordo novo com o Brasil se houvesse mudanças na questão de direitos humanos", afirma Poggio.


Covid-19

Caso a pandemia continue nos próximos meses com a mesma gravidade, o presidente eleito deve adotar medidas nacionais de restrições, inclusive a obrigatoriedade do uso da máscara. Isso aumentará a pressão internacional para que o Brasil reforce as políticas de combate ao coronavírus.

Para ajudar o Brasil no auge da pandemia, Trump enviou respiradores e estoques de hidroxicloroquina — medicamento que já se mostrou ineficaz para tratar a Covid-19, segundo diversas pesquisas. Inclusive, nem mesmo o republicano tomou o medicamento quando se infectou com o novo coronavírus.

Não está claro ainda se haverá alguma política dos EUA sob Biden de ajudar o Brasil caso a pandemia volte a piorar no país. Outra questão que precisará ser acompanhada nos próximos meses é o papel do governo americano na produção e distribuição de vacinas para outros países.


O que NÃO tende a mudar


Venezuela

Embora possa haver uma mudança no tom da Casa Branca, o repúdio ao regime de Nicolás Maduro é um dos poucos consensos entre republicanos e a ala majoritária do Partido Democrata, mais moderada, da qual Biden faz parte. Portanto, o Brasil deve continuar próximo dos EUA na pressão por mudanças no governo venezuelano.

"A pressão sobre a Venezuela continua, inclusive com discurso militarizado. Mas os venezuelanos têm apoio de milícias russas, o que não é um problema simples de resolver", avalia Juliano Cortinhas.


China e 5G

Durante a campanha, Biden também subiu o tom com o governo de Xi Jinping, em uma mostra de que as rusgas entre Washington e Pequim devem continuar. Assim, a Casa Branca deve manter os questionamentos sobre segurança da informação do 5G oferecido pela chinesa Huawei durante os anos em que o assunto estiver em pauta no Brasil.

Para Leonardo Paz, da FGV, a China é outro tema que une as alas mais tradicionais democratas e republicanas. Segundo o pesquisador, possivelmente os EUA vão manter a pressão sobre as decisões do Brasil sobre a Huawei e o 5G — e é a resposta das autoridades brasileiras que vão ditar os rumos da discussão.


"Esse é um assunto muito sério, e não dá para ignorar a questão em torno da empresa chinesa. Mas vale lembrar que o último evento envolvendo espionagem e comunicação ocorreu em 2013 pelos EUA sob o governo do democrata Barack Obama. E a presidente brasileira à época era Dilma [Rousseff]", comenta Paz.


Comércio e acordos

A não ser que a relação se deteriore muito, os acordos assinados no governo Trump, como o de salvaguardas tecnológicas para a Base de Alcântara (MA), devem continuar valendo. Novas iniciativas dependerão da capacidade de diálogo entre Biden e Bolsonaro.

Porém, segundo os professores ouvidos pelo G1, os recentes acordos beneficiaram mais os EUA do que o Brasil. Não houve, na avaliação deles, grandes parcerias no governo Trump que tenham trazido novidades significativas ao país.

"Houve muitos tapinhas nas costas, mas sem mudanças estruturais. Não vi ganhos concretos chegarem ao Brasil", analisa Carlos Gustavo Poggio, da Faap. Fonte: G1

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